Boas práticas em cena: pandemia reconfigura forma de consumir do brasileiro

A pandemia mudou os hábitos mais corriqueiros da população. Com as restrições severas de deslocamento e comércio fechado durante meses, o brasileiro passou a buscar novas formas de consumo. Com isso, veio a valorização do comércio de bairro e a busca por produtos artesanais e sustentáveis, levando grandes marcas a ficar de olho nessa nova tendência.

POR JULIANA PRADO (juliana.campos@cbn.com.br)

Não é mais surpresa para ninguém que a pandemia do coronavírus virou nossas vidas do avesso. Já são quase cinco meses de privações, esperas e novos hábitos. E uma das mudanças mais radicais foi na forma de consumo dos brasileiros. Presos dentro de casa, muitos passaram a fazer compras do pequeno produtor e naquele comércio de bairro que andava meio esquecido. A pandemia também iluminou hábitos conscientes em muita gente.

É o caso da jornalista Flávia Lopes, que aderiu a um combo de sustentabilidade e valorização dos produtos artesanais e sem agrotóxicos. Ela quer reduzir ao máximo a utilização de plástico e conta que decidiu se aventurar a montar, com os dois filhos pequenos, uma composteira de material orgânico.

Uma pesquisa do Instituto Fecomércio comprova essa tendência de mudança no comportamento de consumo. Só na capital fluminense, 82 por cento dos consumidores passaram a comprar de comércios locais na pandemia. E essa disposição deve continuar depois que acabarem as medidas de isolamento, já que mais de 80 por cento pretendem seguir comprando em comércios de bairro ou de pequenos produtores.

Gente como a mineira Marina Almeida, que é chef de cozinha, agradece por esses novos ares. Contando com um eficiente boca a boca e usando as redes sociais, ela viu seu serviço de entrega de refeições se fortalecer na quarentena.

Enquanto as pessoas se adaptam, o mercado tenta se transformar pra suprir demandas de um consumidor mais consciente. A professora da ESPM, Karine Karam, acredita que pequenas e grandes marcas vão coexistir, mas as duas terão que pensar em preços mais justos.

E com a reclusão forçada, a casa virou um dos focos de consumo. Um estudo da ESPM, feito no início da pandemia, mostrou que 45 por cento dos entrevistados passaram a comprar pela internet. Desse total, 70 por cento adquiriram apenas itens pra casa, desde eletrodomésticos até produtos de lazer.

A mudança de comportamento também alcançou o campo. Chama atenção o aumento da busca por alimentos orgânicos. O produtor rural Alexandre Becker, que atua no Rio, conta que as vendas dispararam e a produção praticamente se esgotou.

Mas há quem alerte que, quando se trata de sustentabilidade, não voamos em céu de brigadeiro. O economista especializado em meio ambiente Carlos Eduardo Young diz que o mercado brasileiro ainda funciona apenas quando pressionado pelo cenário externo.

Enquanto se adaptam aos novos tempos, consumidores e empresas tentam entender o que será o chamado novo normal. A torcida, dos dois lados, é que as mudanças nos hábitos de consumo se consolidem no tão esperado mundo pós-pandemia.