Eu e Maria Carolina Medeiros descobrimos o K-pop e nos apaixonamos por um grupo de jovens brasileiros que se reúnem em torno de um hobby tão saudável. Eles dançam, conversam, se divertem e o mais interessante, são proibidos o uso de drogas e álcool. Mas, nos perguntávamos o tempo todo como jovens brasileiros que jamais haviam saído do Brasil, conheceram a música koreana.

 

Para responder a estas perguntas, fomos a campo. Observamos encontros do K –pop com mais de cem jovens em locais públicos como a Quinta da Boa Vista. Utilizamos o método da observação participante. Observamos horas sem sermos notadas e em uma segunda etapa entrevistamos mais de 30 jovens em profundidade. Além disso, fizemos uma análise bibliográfica e documental para desvendar o que o havia sido publicado sobre o K-pop. Depois de meses de pesquisa, fizemos um artigo que foi apresentado no Comunicom de 2015.

 

Veja algumas das descobertas que fizemos:

 

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a economia da Coreia do Sul vem crescendo exponencialmente. Dentre os avanços do país, destacam-se os investimentos em educação e tecnologia. A internet faz parte da vida da maioria dos sul-coreanos e contribui diretamente para o acesso à informação. Neste contexto, a Coreia do Sul criou a Hallyu, ou Onda Coreana, que consiste na “exportação” de sua cultura para diversos países do mundo. Neste artigo, estudamos o k-pop, gênero musical coreano que tem conquistado cada vez mais fãs no Brasil através do compartilhamento de vídeos na internet. A partir dos conceitos de autenticidade e resistência, revisão teórica e análise de comportamento dos jovens por meio de entrevistas em profundidade, buscamos entender se os fãs de k-pop no Brasil poderiam ser ou não classificados como subcultura.

 

Após analise documental, observação participante e entrevistas em profundidade, foi possível demonstrar vários aspectos da autenticidade no grupo de jovens que se define como fãs de k-pop. O grupo tem uma admiração bastante original pelo pop coreano e a música foi a abertura para um encantamento mais amplo com a cultura da Coreia do Sul. Diferente da maior parte dos jovens, este grupo não consome bebidas alcoólicas durante as apresentações e tem uma cultura material bastante genuína exibida nas coleções de CD. Existe ainda uma disputa por capital subcultural que se dá pela posse de produtos de consumo, pelo consumo de shows, pela desenvoltura na dança, pelo fato de se ter uma banda cover, por ser administrador de uma página no Facebook ou um canal no Youtube, enfim, tudo isso atribui valor ao individuo criando uma espécie de hierarquia dentro desta comunidade. Além disso, a importância de ser natural é um atributo bastante valorizado neste grupo, já que nada que seja forçado e artificial é bem visto. Podemos ainda dizer que há neste grupo um interesse pela prática da música coreana que é igualmente singular.

 

Por outro lado, a Coreia do Sul parece ter um objetivo bastante claro e estratégico de espalhar a cultura do país, usando ferramentas de marketing bem elaboradas como as redes sociais e a internet, além de um processo de gestão de talentos bastante inovador e um público alvo bastante bem desenhado. Difícil acreditar que o interesse despertado pelos jovens por este gênero musical seja genuíno. Ao contrário, os jovens parecem ter comprado uma ideia bastante bem elaborada de uma cultura de ídolos que faz uso de cores, músicas ousadas e coreografias marcadas para chamar a atenção dos jovens.  Por não dominarem o idioma, as letras das músicas tonaram-se irrelevantes para grande parte dos fãs de k-pop, que se sentem atraídos especialmente pelo conceito de uma “música para sentir” ao invés de uma “música para entender”.

 

Apesar de o k-pop estar arrebanhando uma quantidade cada vez maior de fãs, é preciso abandonar a visão de que esta juventude esteja sendo totalmente manipulada pela Coreia do Sul. Vários entrevistados declaram resistência ao modelo coreano de produção de ídolos, o que não significa dizer que irão romper com a música para enfraquecer as bases do processo de geração de ídolos. Entretanto, muitos fãs já percebem o movimento como algo não saudável e não admirável, questionando o que chamam do “jeito coreano de fazer as coisas”.

 

Os fãs de k-pop parecem abertos e flexíveis, abrigando todo tipo de jovem em torno de uma causa bem clara: diversão e entretenimento. São ecléticos, gostam de diversos estilos musicais e não parecem buscar reivindicar ou criticar as músicas não coreanas. Apesar dos ídolos no k-pop, esses jovens são abertos a outros grupos sociais e outros estilos musicais, o que parece indicar que não haja uma oposição ao mainstream ou a cultura pop americana, que é igualmente admirada pelo grupo quando, por exemplo, declaram participar de eventos como o Rock in Rio.

 

Todos esses elementos nos fazem, portanto, apontar que o pop coreano é uma alternativa ao consumo cultural dominante, mas que não tem em suas bases nenhuma pretensão de suplantar a cultura estabelecida. Sendo assim, a Coreia do Sul parece ter alcançado seu objetivo de divulgar a cultura local ao redor do mundo, contribuindo para o que HALL (2011) chamou de identidades híbridas. Paralelamente, os fãs brasileiros não parecem compor uma subcultura, à medida que não desenvolveram uma ideologia própria, sólida e legítima, sendo o k-pop um estilo de vida e uma forma destes jovens se expressarem. Ao adotar atitudes, costumes e comportamentos tão diferentes, estes jovens parecem estar nos dizendo que se sentem diferentes também e através deste profundo intercâmbio cultural estão experimentando identidades, que graças a sua natureza móvel, podem ser temporárias, mas fundamentais para a construção de suas identidades individuais.

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